ALGO ESTÁ MAL. É URGENTE INTERVIR.
2026, Jul 28
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Dádiva de sangue em Portugal: falta uma estratégia — e falta uma voz

 

Nas últimas semanas tem-se verificado uma diminuição significativa da comparência dos dadores de sangue. O calor extremo e o período de férias de verão provocam, todos os anos, uma redução acentuada das dádivas. As elevadas temperaturas e a desidratação associada afastam muitos dadores habituais, dificultando a reposição das reservas de sangue.

Estamos perante uma situação muito preocupante. Todos os verões assistimos a uma diminuição das dádivas de sangue, mas este ano o problema é agravado pelas dificuldades na resposta operacional, colocando em risco a estabilidade das reservas nacionais."

Portugal necessita, em média, de cerca de 1.100 unidades de sangue por dia para responder às necessidades dos hospitais. Não existe forma de fabricar sangue em laboratório nem perspetiva de que isso aconteça num futuro próximo. Cada unidade transfundida depende exclusivamente do gesto voluntário e altruísta de um dador.

Todos os verões, a Federação Portuguesa de Dadores Benévolos de Sangue (FEPODABES) alerta para a previsível diminuição das reservas. Contudo, o problema que hoje pretende colocar na agenda pública vai muito além da sazonalidade.

O verdadeiro problema reside na ausência de uma estratégia nacional consistente para a dádiva de sangue.

O Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST), entidade responsável por garantir o abastecimento de sangue ao Serviço Nacional de Saúde e ao setor privado, enfrenta dificuldades estruturais que comprometem a sua capacidade de resposta. A escassez de recursos humanos, as limitações financeiras e a reduzida capacidade de intervenção dificultam o planeamento e a gestão de um setor absolutamente essencial para o funcionamento do sistema de saúde.

Recentemente, o Sindicato dos Médicos do Norte denunciou publicamente as condições de trabalho existentes no Centro de Sangue e da Transplantação do Porto, referindo semanas de trabalho entre 52 e 64 horas, sem remuneração das horas suplementares e sem o cumprimento dos períodos mínimos de descanso, tendo solicitado a intervenção da Inspeção-Geral das Atividades em Saúde e da Ministra da Saúde.

Embora o IPST tenha explicado esta situação como resultante de uma reorganização interna dos recursos humanos, é inegável que o Instituto enfrenta sérias dificuldades no recrutamento e retenção de médicos especializados, realidade evidenciada também pelos concursos que ficaram desertos por falta de candidatos.

A estas dificuldades junta-se uma situação financeira preocupante. Os hospitais acumulam dívidas de dezenas de milhões de euros ao IPST relativas ao fornecimento de sangue e componentes sanguíneos. Esta realidade limita significativamente a capacidade do Instituto para investir, contratar profissionais, renovar equipamentos e planear a médio e longo prazo.

A FEPODABES tem vindo, há vários anos, a alertar sucessivamente o Ministério da Saúde, o IPST e os diferentes grupos parlamentares para estes problemas, propondo diversas soluções concretas destinadas a melhorar a capacidade de resposta do sistema.

Entre essas propostas encontram-se:

  • Reforço das equipas de colheita;
  • Alargamento dos horários de recolha durante os meses de verão;
  • Melhor aproveitamento da colaboração das Associações e Grupos de Dadores de Sangue;
  • Maior valorização dos profissionais da medicina transfusional;
  • Reforço das campanhas permanentes de sensibilização.

Infelizmente, muitas destas propostas continuam sem resposta ou não foram implementadas.

Entretanto, continuam a verificar-se cancelamentos de sessões de colheita previamente planeadas, dificuldades em garantir equipas suficientes e uma redução da capacidade de recolha precisamente na época em que o país mais necessita de sangue.

A FEPODABES reafirma aquilo que há muito defende:

O problema não é a falta de dadores.

O problema é a falta de capacidade para recolher o sangue que os portugueses estão disponíveis para oferecer.

Esta realidade tem consequências muito concretas.

Um doente oncológico, um acidentado grave, uma criança submetida a cirurgia ou uma mulher com hemorragia pós-parto dependem da existência de sangue disponível no momento certo.

Cada sessão cancelada, cada profissional em exaustão e cada atraso na reposição das reservas representa um risco acrescido para os doentes e para o funcionamento do Serviço Nacional de Saúde.

Portugal necessita urgentemente de uma verdadeira política nacional para a dádiva de sangue

Essa política passa obrigatoriamente por:

  • Reforçar os recursos humanos do IPST;
  • Valorizar adequadamente os profissionais da medicina transfusional;
  • Dotar o IPST de maior autonomia operacional e financeira;
  • Garantir que os hospitais liquidem atempadamente as dívidas ao Instituto;
  • Alargar os horários de colheita nos períodos críticos;
  • Desenvolver campanhas permanentes de sensibilização dirigidas à população;
  • Criar incentivos à dádiva benévola de sangue;
  • Valorizar e apoiar o trabalho desenvolvido pelas Associações e Grupos de Dadores de Sangue.

A FEPODABES continuará a representar os milhares de cidadãos que, de forma voluntária, regular e altruísta, dão sangue para salvar vidas.

Chegou o momento de o Ministério da Saúde, o Instituto Português do Sangue e da Transplantação e os hospitais assumirem plenamente as suas responsabilidades.

Não faltam dadores.

Não falta solidariedade.

Falta capacidade de resposta.

APELO À POPULAÇÃO

As reservas de sangue encontram-se atualmente em níveis preocupantes, comprometendo a capacidade de resposta às necessidades dos hospitais portugueses.

Se tem entre 17 e 70 anos, está saudável e reúne condições para dar sangue, faça-o com urgência.

Uma única dádiva pode salvar até três vidas.

Cada dador que comparece representa uma esperança para quem aguarda uma transfusão. Hoje, mais do que nunca, todos podemos fazer a diferença.